Sermão 10 · Lucas 8.22

Passemos para Outra Margem

"... Passemos para outra margem do lago, e partiram."

Pregado no Culto de Domingo à Noite
Igreja Presbiteriana Shekinah
28 de Janeiro de 2024
Glalter Garcia Justo Rocha

"... Passemos para outra margem do lago, e partiram."

Lucas 8.22

Irmãos, todo dia você ouve uma promessa. Ou faz uma. Amanhã eu trago para você. Semana que vem eu tiro férias e vamos viajar para o Chile. No próximo mês eu resolvo isso. Ano que vem eu começo aquilo. Promessas, promessas, promessas.

Agora eu pergunto: que garantia você tem de que essa promessa vai se cumprir? Nenhuma. Eu poderia listar aqui, diante de vocês, centenas de acontecimentos que podem frustrar seus planos ou os planos de qualquer pessoa. Uma doença. Um acidente. Uma crise financeira. Uma mudança inesperada. A morte. O seu desejo de realizar algo não tem, em si mesmo, nenhum poder de fazer acontecer. Desejar não é o mesmo que cumprir. Querer não é o mesmo que realizar.

E é exatamente por isso que o texto que eu acabei de ler com vocês é, sem dúvida alguma, um daqueles textos que nos convida a ficar em estado de espanto diante de Deus. Diante do Deus que resolveu nos amar com amor eterno. Diante do Deus que decidiu, desde antes da fundação do mundo, ser nosso Pai. Por quê? Porque esse Deus não é como nós. Ele não apenas fala. Ele cumpre o que fala. Porque Ele governa tudo que existe na terra, no céu e no mar.

Olhem bem para esta cena. Jesus entra num barco com os discípulos e faz uma declaração simples, uma única frase curta:

"Passemos para outra margem do lago."

Prestem atenção no que Ele está dizendo. Ele não está consultando os discípulos. Ele não está perguntando se a previsão do tempo está boa. Ele não está pedindo opinião dos pescadores experientes que estavam ali, homens que conheciam o lago desde a infância. Ele simplesmente afirma o destino da viagem. Passemos para outra margem. E a narrativa continua: "e partiram".

Assim que todos entraram e se acomodaram, Jesus foi dormir. E o que acontece a partir dali, irmãos, é uma sequência de eventos que vai revelar três coisas. Primeiro, quem é Jesus. Segundo, qual é o alcance do poder d'Ele. E terceiro, quem somos nós, os discípulos d'Ele, e o quanto somos desconfiados e incrédulos diante das palavras que Ele nos diz.

Diz o texto que sobreveio uma tempestade de vento no lago. Não foi uma brisa. Não foi chuva fina. Foi uma tempestade violenta, dessas que fazem o barco adernar e a água entrar pelas bordas. Lucas usa uma palavra forte: "enchia-se de água o barco, e eles estavam em perigo" (Lucas 8.23).

Agora, pensem comigo. Quem estava no barco? Pelo menos quatro pescadores profissionais: Pedro, André, Tiago e João. Homens que tinham passado a vida inteira naquele lago. E no entanto, toda a experiência profissional, todo o conhecimento técnico, toda a habilidade humana daqueles homens chegou a um ponto em que não era mais suficiente. Eles chegaram ao limite. A tempestade foi maior do que a competência deles.

Eu preciso parar aqui. Porque este é um momento muito importante para você entender uma coisa sobre a vida cristã.

Jesus disse: "Passemos para outra margem." Essa era a palavra d'Ele sobre aquela viagem. E mesmo assim, quando eles já estavam na travessia, a tempestade veio. Quer dizer: a tempestade não contradiz a palavra de Jesus. A tempestade acontece no meio da obediência à palavra de Jesus.

Há uma mentira circulando nos meios cristãos de hoje que precisa ser desfeita. A mentira de que, se Deus falou, então o caminho estará tranquilo. A mentira de que, se há tempestade na sua vida, é porque você saiu da vontade de Deus. Irmãos, isso não é verdade. Os discípulos estavam exatamente dentro da vontade de Cristo quando a tempestade caiu sobre eles. O barco estava no rumo certo. A palavra estava sendo obedecida. E mesmo assim, o vento veio, as ondas vieram, o perigo veio.

Mas eu preciso ir mais fundo com vocês neste ponto, porque a Escritura nos ensina que as tempestades não têm todas a mesma origem. E se você não discernir a origem da tempestade, você vai reagir errado diante dela.

Há tempestades que vêm do diabo, com permissão de Deus — foi o que aconteceu com Jó. Há tempestades que vêm diretamente da mão de Deus, como instrumento de disciplina — foi o que aconteceu com Jonas. E há ainda tempestades de natureza propriamente espiritual, vindas do inimigo para tentar impedir a obra do Reino. É isto que eu vejo em Lucas 8: do outro lado do lago, as trevas sabiam que Cristo estava vindo. O inferno mobilizou vento e onda para tentar impedir aquela travessia. Aquela tempestade não era natural apenas. Era espiritual. Era Satanás tentando afogar o Libertador antes que Ele chegasse onde um jovem atormentado aguardava a chegada do seu Salvador.

E isto tem uma aplicação direta para você, irmão. Quando Cristo está te levando para outra margem onde haverá libertação, cura, restauração, expansão do Reino, espere tempestade no meio do caminho. O diabo não entrega território sem brigar. A intensidade da tempestade muitas vezes é proporcional ao que Deus está para fazer na outra margem.

Por isso, quando a tempestade vier, faça-se três perguntas:

Primeira: Estou em pecado? Estou fugindo de algum chamado? Se a resposta for sim, essa pode ser tempestade de Jonas. Arrependa-se, volte para Deus, e a bonança voltará.

Segunda: Não estou em pecado, mas Deus pode estar provando a minha fé? Se a resposta for sim, essa pode ser tempestade de Jó. Persevere, confie, aguarde o fim da prova.

Terceira: Estou no caminho da obediência, indo para onde Cristo mandou, e mesmo assim o vento veio? Se for isto, essa é tempestade espiritual. O inimigo está tentando te impedir de chegar à outra margem. Não recue. Não volte. Levante-se, clame a Cristo, e siga adiante. Porque, irmão, na outra margem há alguém esperando por você.

E aqui entra a segunda coisa que o texto quer te mostrar: quem é Jesus. Porque enquanto a tempestade se formava, enquanto o barco enchia de água, enquanto os pescadores experientes suavam de medo, o que Jesus estava fazendo? Dormindo.

Dormindo, irmãos. Dormindo no meio da tempestade.

O sono de Jesus aqui não é indiferença. Não é descaso. O sono de Jesus é a mais eloquente demonstração de autoridade soberana que os evangelhos nos mostram. Ele dorme porque Ele sabe quem é. Ele dorme porque o lago é d'Ele. Ele dorme porque o vento obedece à voz d'Ele. Ele dorme porque disse "passemos para outra margem" e essa palavra não vai cair por terra.

Os discípulos, em desespero, acordam Jesus. E vejam o grito deles: "Mestre, Mestre, estamos perecendo!" (Lucas 8.24). É o grito de quem acha que a palavra de Jesus pode falhar. É o grito de quem não entendeu ainda com quem está no barco.

E o que Jesus faz? Ele simplesmente repreendeu o vento, como quem repreende um cachorro desobediente. E o texto diz: "tudo cessou, e houve bonança" (Lucas 8.24). A mesma voz que no Gênesis disse "haja luz" e houve luz, é a voz que agora diz "silêncio" ao vento, e o vento se cala.

Eu preciso fazer uma pausa pastoral e dirigir uma palavra a algumas pessoas que estão me escutando.

Aos que estão passando por tempestade hoje. Talvez você tenha recebido uma notícia difícil esta semana. Um diagnóstico. Uma demissão. Uma traição. Uma perda. Escute com cuidado: a presença da tempestade na sua vida não significa que Cristo desistiu de te levar para a outra margem. A palavra d'Ele sobre você continua de pé. Ele apenas está te ensinando, na tempestade, quem Ele é.

Aos pais e mães que estão angustiados com filhos. Talvez o barco da sua família esteja balançando muito agora. Filho que se desviou. Filha em crise. Adolescente em rebeldia. Vocês estão gritando "estamos perecendo". Mas escutem: a mesma voz que repreendeu o vento pode repreender a tempestade na casa de vocês. Não desistam de acordar Jesus. Ele pode parecer dormindo, mas Ele ouve o grito dos pais.

Aos que estão numa cama de UTI, ou acompanhando alguém amado que está. Cristo não parou de estar no barco com você. A cama do hospital também é um barco onde Ele viaja ao seu lado. O mesmo Cristo que disse "passemos" está dizendo agora, mesmo que você não ouça: "vamos juntos até a outra margem, seja ela aqui ou na eternidade."

Aos empresários e profissionais que veem a tempestade financeira. Contas que não fecham, negócio que balança, emprego incerto. Deus não é refém da economia. Ele é dono do gado de mil colinas. Não se desespere. Acorde Jesus. Ore.

Aos jovens no meio da tempestade da dúvida. Cristo não tem medo das suas perguntas. Ele dorme na tempestade porque sabe que o barco chega. Acordem-n'O com as suas dúvidas. Ele responde.

E aos que ainda não conhecem Cristo. O Jesus da Bíblia é o Deus que repreende o vento. É o Criador do universo em corpo humano. E Ele está te chamando para entrar no barco d'Ele. Entre. Porque o barco d'Ele, mesmo com tempestade, vai chegar à outra margem. Todo outro barco vai afundar.

Depois que o vento se cala, Jesus se volta para os discípulos e faz uma única pergunta que desce até o fundo da alma de cada um de nós:

"Onde está a vossa fé?"

Lucas 8.25

Onde está. Não "por que vocês não têm fé", porque eles tinham. Eles tinham entrado no barco por fé. A pergunta d'Ele é mais delicada: onde está a fé de vocês? Para onde ela foi?

A fé não saiu de dentro deles. A fé simplesmente se escondeu na hora do perigo. Ela estava ali no momento de embarcar, estava ali enquanto navegavam com sol. Mas quando o vento bateu, a fé sumiu. Não desapareceu de vez. Apenas se recolheu. Se encolheu. Se escondeu num canto do coração.

E é isso que a tempestade faz com a gente. Ela não costuma destruir a fé. Ela costuma expor a fé. Ela mostra quanta fé realmente havia ali. Quando o vento está quieto, todo mundo parece forte. Quando o vento aperta, aí a gente descobre se a fé é raiz ou se é só folha verde.

E o mais belo desta história, irmãos, é o que Jesus fez antes de fazer a pergunta. Ele não perguntou primeiro. Ele primeiro acalmou a tempestade. Depois perguntou. Quer dizer: a graça vem antes da repreensão. O socorro vem antes da correção. Cristo salva primeiro, ensina depois.

Este é o evangelho, meus irmãos. Cristo não espera que você tenha fé perfeita para te socorrer. Ele te socorre na sua fé pequena, na sua fé trêmula, na sua fé escondida. E então, na bonança, Ele faz pastoralmente a pergunta que vai formar em você uma fé maior para a próxima tempestade.

O texto diz que os discípulos, depois de tudo, ficaram espantados e disseram entre si: "Quem é este, que até aos ventos e às águas manda, e eles lhe obedecem?" (Lucas 8.25). Essa é a pergunta que todo sermão, toda leitura bíblica, toda oração, deveria produzir em você. Quem é este? Porque no momento em que você responde corretamente essa pergunta, tudo muda.

Aquele Jesus do barco não é apenas uma figura histórica. Ele é o mesmo hoje. A mesma autoridade. A mesma voz. O mesmo poder sobre a criação. E Ele continua dizendo à sua vida, neste momento: "Passemos para outra margem." Essa é a palavra d'Ele sobre o seu casamento. Sobre seus filhos. Sobre sua saúde. Sobre seu ministério. Sobre sua conversão.

A tempestade vai bater. O vento vai uivar. A água vai entrar pelas bordas. Mas a palavra d'Ele não cai por terra. Passemos significa vamos chegar. Se Ele disse, vai acontecer. Porque Ele é o Deus que cumpre o que promete.

Passemos para outra margem.
Essa é a palavra. E essa palavra se cumpre.

E se você nunca entrou no barco, entre hoje. Porque todo barco sem Cristo, por mais calmo que o mar esteja no momento, vai naufragar na tempestade final. Mas o barco onde Ele está, mesmo enfrentando o pior vento, chega sempre à outra margem.

❦ Soli Deo Gloria