"... e não pediram conselho ao Senhor."
Josué 9.14Irmãos, há um versículo em Josué 9 que eu gostaria de colocar hoje diante de vocês e pedir que carreguem consigo por toda a vida. É um versículo curto, quase discreto no meio da narrativa. Se você o ler rapidamente, ele passa despercebido. Mas se você parar sobre ele, esse versículo vai fazer você tremer.
É isto. Não há aqui uma lição comprida. Não há aqui uma doutrina complicada. Há apenas uma frase que, bem entendida, pode poupar você de décadas de amargura. E é sobre esta frase que eu quero conversar com vocês hoje.
Vamos ao contexto. Israel estava no auge. Jericó havia caído ao som das trombetas. Ai tinha sido vencida, depois da dura lição do pecado de Acã. Os reis cananeus estavam tremendo em suas fortalezas. Josué era, naquele momento, um homem famoso. E é exatamente aí que eu preciso que vocês abram os olhos. A maior parte das quedas espirituais não acontece no vale. Acontece no cume. A gente cai mais facilmente depois que vence.
Quando o cristão é perseguido, ele ora. Quando o cristão está doente, ele ora. Quando o cristão está sem dinheiro, ele ora. Mas quando o cristão vence, quando prospera, quando é elogiado, aí ele dispensa a oração. E é exatamente aí que o inimigo encosta na porta. Eu tenho visto isso em quase três décadas de ministério: o pastor não cai quando a igreja está pequena, chorando no altar. Ele cai depois que a igreja cresceu, depois que os convites chegaram, depois que o nome começou a aparecer. É no cume que se escorrega.
Agora olhem para os gibeonitas. Eles moravam ali mesmo, perto, a menos de um dia de distância. E quando ouviram o que Israel tinha feito com Jericó e Ai, não pegaram lanças. Pegaram sandálias velhas. Prestem atenção à lista do texto: sacos gastos nos jumentos, odres remendados, roupas surradas, pão seco e bolorento. Era uma encenação inteira. Era um figurino teatral. Cada buraco na sandália tinha sido cuidadosamente planejado para contar uma mentira.
O diabo é um ator. E é um ator paciente. Ele não chega apressado. Ele prepara a cena, escolhe o figurino, ensaia o discurso. Ele estuda você. Ele sabe o que comove seu coração, sabe qual versículo faz você chorar, sabe que tipo de história derruba você. E quando chega a hora, ele bate na porta vestido de peregrino cansado, com a Bíblia debaixo do braço e lágrimas nos olhos.
E aqui está o detalhe mais fino do texto, aquele que eu quero que fique gravado no coração de vocês: eles falaram corretamente sobre Deus. Citaram o Êxodo. Citaram a derrota dos reis amorreus. Usaram o nome do Senhor. O discurso era impecavelmente ortodoxo.
Gravem isto: nem tudo que fala de Deus vem de Deus. Nem toda boca que cita versículo é boca enviada. O diabo conhece a Bíblia de cor. Ele a citou até mesmo a Cristo, no deserto. A linguagem você ouve com os ouvidos; mas o espírito, você só discerne de joelhos.
Agora vem o golpe. O versículo que eu quero que fique gravado no coração de vocês hoje:
"... e não pediram conselho ao Senhor."
Josué 9.14
Josué era o homem que atravessara o Jordão ouvindo a voz de Deus. O homem que tinha visto as muralhas caírem por revelação divina. O homem que aprendera, com o pecado de Acã, quanto custa a presunção. E mesmo assim, Josué decidiu. Sem consultar. Sem orar. Sem ajoelhar.
Por quê? Porque a evidência parecia óbvia. O saco estava remendado. A sandália estava gasta. O pão estava bolorento. Os cinco sentidos confirmavam a história. E quando os cinco sentidos confirmam, a gente dispensa o sexto, que é o Espírito.
Aqui está a raiz de tanto sofrimento na vida cristã hoje. Decisões espirituais tomadas com critérios naturais. Escolhemos cônjuge porque é bonito. Escolhemos sócio porque é amigo. Escolhemos líder porque é eloquente. Recebemos pregador porque é famoso. Abraçamos movimento porque está crescendo. E não perguntamos ao Senhor.
Eu preciso parar aqui e dirigir uma palavra a alguns de vocês. Porque o Espírito Santo não deixa ninguém passar por esta altura sem ser tocado.
Aos casados que me escutam. Talvez você tenha se casado sem perguntar ao Senhor. O coração confirmou, os olhos aprovaram, a família gostou, e você seguiu. Hoje, anos depois, você vive sob o peso de uma aliança que nunca deveria ter sido feita daquele jeito. Escute: a cruz não dissolve a aliança, mas a cruz redime o pecador que a fez, e a graça de Deus pode transformar até o seu lar em palco de sua misericórdia. Não desespere. Mas aprenda.
Aos pais que me escutam. Talvez vocês estejam prestes a aprovar um namoro, a escolher uma escola, a tomar uma decisão sobre um filho. Não decidam com os olhos. Não decidam com a razão fria. Levem o nome daquele filho ao altar antes de levá-lo a qualquer outro lugar. Os gibeonitas costumam aparecer primeiro na vida dos nossos filhos. Vigiem.
Aos jovens. Nem todo relacionamento que parece certo vem de Deus. O diabo também veste sandálias novas para enganar jovens. Ele sabe que vocês confundem emoção com direção. Orem. Perguntem ao Senhor. Porque o custo de um "sim" precipitado aos dezoito, você pagará aos trinta e oito.
Aos líderes e pastores. Nem toda oportunidade é Deus. Nem todo convite é direção. Nem toda porta aberta é porta do Espírito. O diabo tem uma estratégia específica para líderes: ele oferece plataformas. Ele oferece visibilidade. Ele oferece alianças que parecem úteis ao Reino. E se o líder não estiver dobrado em oração, ele assina a aliança achando que está servindo a Deus, e três anos depois descobre que firmou pacto com gibeonitas.
Três dias. Apenas três dias depois, a verdade apareceu. Mas vejam a crueldade do engano espiritual: quando a verdade aparece, já é tarde. O juramento foi feito. O nome do Senhor foi invocado sobre a aliança. E agora Israel, por temor de quebrar o voto, precisa honrar um pacto que jamais deveria ter feito.
Esta é a marca do pecado de presunção: quando você descobre, já está comprometido. Você já assinou. Já envolveu sua família. Já colocou seu nome. E desfazer custa muito mais do que teria custado orar no começo.
Eu me lembro, nessas horas, do velho Matthew Henry, que dizia que o diabo nunca chega à porta com más credenciais. Ele sempre traz cartas de recomendação. O problema é que elas são falsificadas. E quem não conhece a letra do Pai, acredita em qualquer assinatura.
Vão comigo até 2 Samuel 21. Séculos depois daquele dia em Gibeão, cai sobre Israel uma fome. Três anos de fome. Davi, já rei, busca a face do Senhor. E a resposta vem:
"É por causa de Saul e da sua casa sanguinária, porque matou os gibeonitas."
2 Samuel 21.1
Entendam o peso disto. Gerações depois, Israel ainda estava colhendo o que foi plantado num único dia em que ninguém parou para orar.
O pecado de um momento pode gerar consequências por gerações. Vocês ouviram? Eu repito, porque isto precisa doer. O pecado de um momento pode gerar consequências por gerações. Aquilo que você planta hoje sem oração, seus netos podem estar regando com lágrimas.
O problema de Israel em Gibeão não foi apenas que eles esqueceram de orar. O problema foi que eles haviam esquecido que não podiam viver sem perguntar. A oração, para o cristão saudável, não é um passo no processo de decisão. A oração é a respiração da alma. É o ar que o cristão precisa para não morrer asfixiado.
Por isso, meu apelo hoje não é técnico. O meu apelo é de coração: chegue ao fim de si mesmo. Chegue ao ponto em que você não consegue nem escolher o que vestir sem dizer: "Senhor, o que achas?" Chegue àquela dependência de menino que não sabe andar sem a mão do pai. Isto não é fraqueza. Isto é saúde espiritual. É isto que Cristo quis dizer quando falou: "Sem mim, nada podeis fazer" (João 15.5).
Israel teve um Josué que falhou. Mas o Pai das misericórdias nos deu um Josué maior. O nome hebraico de Josué é Yeshua. E o nome do nosso Salvador é o mesmo: Jesus. O Josué do Antigo Testamento falhou na decisão. O Josué do Novo Testamento nunca falhou.
Josué foi enganado. Cristo nunca foi. Josué julgou pela aparência. Cristo discerne os corações. Josué consultou os olhos. Cristo consultou o Pai, em cada passo, em cada decisão, em cada confronto. Josué fez uma aliança errada com homens. Cristo fez uma aliança eterna e perfeita, selada no seu próprio sangue.
E escute isto, porque esta é a parte mais doce do evangelho para você que está com a consciência pesada hoje: na cruz, Cristo não levou apenas os seus pecados de rebelião. Ele levou também os seus pecados de cegueira. Ele levou suas decisões tolas, seus pactos apressados, suas alianças mal-feitas. O sangue de Cristo não cobre apenas o pecado que você fez de mãos dadas com o diabo. Cobre também o pecado que você fez achando que estava servindo a Deus.
A cruz não volta o passado. Essa é a parte dura. Deus pode permitir que consequências permaneçam na sua vida, como Israel teve que conviver com os gibeonitas até o fim. Mas a cruz remove a condenação. E mais do que isso: a cruz pode transformar até alianças erradas em palco da graça soberana. Deus é tão grande que Ele redime até os seus erros de julgamento. Ele escreve reto em linhas tortas. Ele faz Gibeão, onde você pecou por presunção, virar Gibeão onde Salomão pedirá sabedoria (1 Reis 3). O lugar do fracasso pode virar o lugar da sabedoria concedida.
E você que veio aqui hoje com o coração pesado porque já fez a aliança errada, porque já disse o "sim" que não deveria ter dito, escute: corra para a cruz. Não corra para o desespero, não corra para a auto-punição. Corra para Aquele que foi ferido pelas suas transgressões e moído pelas suas iniquidades. Ele comporta a sua história. Ele redime os enganados. Ele tem graça suficiente para os que disseram sim quando deveriam ter dito "Senhor, fala."
Não basta evitar os gibeonitas. É preciso correr para o Cordeiro.
Pois somente Ele pode salvar quem já disse "sim" quando deveria ter dito "Senhor, fala."
Que Deus tenha misericórdia de nós. Que o Espírito Santo nos reavive no joelho. Que Cristo seja glorificado em uma igreja que enfim aprendeu a orar antes de decidir, e a correr para a cruz quando já decidiu errado.